Súmula histórica sobre o estudo dos equinoides Cretácicos do Baixo-Mondego

 

    As referências à paleontologia e estratigrafia da plataforma carbonatada cenomaniana-turoniana da região do Baixo Mondego remontam a Daniel Sharpe (1806-1856), nomeadamente com a descrição do género Tylostoma Sharpe, 1849 (Fig. 1). Seguiram-se os trabalhos de Paul Choffat (1849-1919), cuja profícua obra sobre o Cretácico nacional constitui referência clássica do acervo de memória da Geologia Portuguesa. 

 

Figura 1 - Tylostoma ovatum in Sharpe, 1849, pl. IX, fig. 7 e 8.

    Foi do labor de Paul Choffat (1897, 1898, 1900), na localidade clássica de Salmanha (Figueira da Foz), que resultou a subdivisão estratigráfica da plataforma carbonatada cenomaniana-turoniana do Baixo-Mondego em catorze níveis, designados por ordem alfabética. Atualmente é consensual que de “B” a “J” está representado o Cenomaniano superior e de “K” a “O” o Turoniano inferior. Esta sucessão é a mais completa do Baixo-Mondego, com uma boa parte destes níveis a revelarem associações faunísticas distintas, o que possibilita a correlação com outros afloramentos da plataforma carbonatada, e vincada continuidade lateral, levando a que possam ser usados como níveis de marcação para a cartografia, como é o caso do nível D transversal em toda a bacia (Callapez et al., 2013).

    No que concerne aos artigos, versando sobre os equinoides do Baixo-Mondego, importa sublinhar que muito por via da investigação de Paul Choffat surgiu o material de suporte para a publicação, em 1887-1888, da obra de grande fôlego Recueil d’études paléontologiques sur la faune crétacique du Portugal, vol. 2 Description des Echinodermes, da autoria do paleontólogo suíço Perceval de Loriol (1828-1908), onde constam referências a exemplares desta região de Coimbra (Figs. 2 e 3). 

 

Figura 2- Mecaster lusitanicus (Loriol, 1888) in Loriol (1887-1888), pl.XIX, fig. 1 a 6.

 

Figura 3- Heterodiadema ouremense Loriol, 1888 ) in Loriol (1887-1888), pl. VIII, fig. 2 a 4.

 

    Depois de um hiato, de mais de meio século, seguiram-se as publicações de Moura (1958), Soares (1968), Soares & Devriès (1967) e Soares & Marques (1973) dedicadas exclusivamente a equinoides do Baixo-Mondego, Pereira et al. (2015) centra-se em aspetos relativos à diversidade de equinoides do Mesozoico da Bacia Lusitaniana.

    Merece nótula de destaque que, em 1967, foi descrito um novo género e espécie, da família Paleopneustidae Agassiz, 1904, com base em espécimes coletados no Cretácico do Baixo-Mondego: Mundaster tentugalensis Soares & Devries, 1967. Segundo Smith & Kroh (2011) o género Mundaster Soares & Devries, 1967 é sinónimo de Polydesmaster Lambert, 1920. 

 

Obras com interesse para o conhecimento de equinoides do Baixo-Mondego

Callapez, P.M. (2008): Palaeobiogeographic evolution and marine faunas of the Mid-Cretaceous Western Portuguese Carbonate Platform. Thalassas, 24: 29-52. 
 
Choffat, L.P. (1886). Recueil d’études paléontologiques sur la Faune Crétacique du Portugal, vol. I - Espèces nouvelles ou peu connues. Section des Travaux Géologiques du Portugal, Lisbonne, 40 p.

Choffat, L.P. (1898). Recueil d’études paléontologiques sur la Faune Crétacique du Portugal, vol. II - Les Ammonées du Bellasien, des Couches à Neolobites vibrayeanus, du Turonien et du Sénonien. Section des Travaux Géologiques du Portugal, Lisbonne, 45 p.

Choffat, L.P. (1900). Recueil de monographies stratigraphiques sur le Système Crétacique du Portugal - Deuxième étude - Le Crétacé supérieur au Nord du Tage. Direction des Services Géologiques du Portugal, Lisbonne, 287 p.

Choffat, L.P. (1902). Recueil d’études paléontologiques sur la Faune Crétacique du Portugal, vols. III-IV - Mollusques du Sénonien à faciès fluviomarin - Espèces nouvelles ou peu connues. Direction des Services Géologiques du Portugal, Lisbonne, 84 p.
 
Soares, A., (1968). Contribuition à l'étude de la distribuition des échinidés du Crétacé supérieur du Portugal (les échinidés de la région de Sargento-Mor et Montemor-o-Velho). Memórias e Notícias, 66: 1-20.
 
Soares, A. & Devriès, A. (1967). Un genre nouveau de la famille des Pericosmidae dans le Crétacé du Portugal. Memórias e Notícias, 63.
 
Soares, A.  &  Marques, L.  (1973). Os equinídios cretácicos da região do rio Mondego : estudo sistemático. Memórias e Notícias, 75: 1-46 
 

Loriol, P. de (1887). Faune Cretacique du Portugal 2. Description des Echinodermes. Echinides reguliers ou Endocycles. Commission des Travaux geologiques du Portugal. Academie Royale des Sciences, Lisbonne.

Loriol, P. de (1891). Description de la faune jurassique du Portugal: embranchement des échinodermes. Mém. Comm. Trav. Géol. Portugal, Lisboa, 179 p., 29 pl.

Markov, A. V. & Solovjev, A. N. (2001). Echinoids of the family Paleopneustidae (Echinoidea, Spatangoida): morphology, taxonomy, phylogeny. Geos 2001, 1-109. 

Moura, A. (1958). Alguns equinídeos regulares fósseis da Costa d'Arnes, Alfarelos, Coimbra, Memórias e Notícias, 45:61-72. 

 

Bibliografia:

 

Callapez, P.M., Brandão, J.M., Santos, V.F. & Gomes, C.R. (2013). Between history and contemporaneous geology: revisiting a “classical" (geo) site from the Upper Cretaceous of Portugal. Revista de la Sociedad Geológica de España, 26 (2): 5-12.

Pinto, R.S. (1932). Daniel Sharpe e a geologia portuguesa. Anais da Faculdade de Ciências do Porto, 17: 193-203.

Sharpe, D. (1849) - On Tylostoma, a proposed genus of gasteropodous mollusks. The Quarterly Journal of the Geological Society of London, Vol. 5, No. 20, 376-380, pl. 9.

 

Nota: Adaptação de textos escritos para trabalhos de MEP e PI